

Elisa, Ferreira, Eurodeputada
francisco providência
http://jn.sapo.pt/2008/05/04/opiniao/norte_portugal_e_galiza.html
Há alguns dias, fui desafiada a participar num encontro onde se discutiam as relações entre a Região do Norte de Portugal e a Galiza. Quase sem querer, dei por mim a passar em revista de forma quase impressionista as várias etapas em que, ao longo da minha vida e actividade profissional, conseguia recordar aspectos dessas relações.1. Das minhas mais antigas reminiscências, evoco a ligação dos galegos a uma vida duríssima e aos trabalhos pesados que executavam para sobreviver; "trabalhar que nem um galego" era, então, uma expressão habitual e emigração e pobreza constituíam um fado a que só a arte de Rosalia de Castro soube dar forma poética "uns partem, outros partem...".Outra memória, já longa de mais de 40 anos, é a dos habituais passeios dos nortenhos pela Galiza; não íamos ainda ao Corte Inglés mas comprávamos colares de conchas, caramelos de nata, Coca-Cola, "pirexes" e "melocotón" em calda; e regressávamos com a sensação de quem tinha ido visitar uma região que, apesar da presença de alguma indústria automóvel, se mantinha agrícola e pesqueira e que era, acima de tudo, pobre.2. Muitos factos se passaram entretanto a democracia regressou aos dois lados da fronteira e esta diluiu-se fisicamente com a adesão ao projecto europeu, surgindo em seu lugar a necessidade de reconhecimento mútuo e de articulação de estratégias; pessoalmente, tive o grato prazer de participar, enquanto quadro da então CCRN, nesses primeiros exercícios de trabalho conjunto que acabaram por originar a constituição, em 1991, de uma "Comunidade de Trabalho" com a Xunta de Galícia, a qual ainda se mantém activa e se transformou num exemplo de cooperação inter-regional europeia.Era imenso o que havia em comum entre as duas regiões, da proximidade linguística à paisagística, cultural, religiosa e gastronómica, entre outras. Acrescia que as duas regiões, idênticas em dimensão geográfica e populacional, acantonadas contra o Atlântico nesta finisterra do Continente, se sentiam periféricas quer face ao centro da Europa quer também relativamente às respectivas capitais.O potencial de benefício mútuo que poderia resultar da cooperação saltava à vista. Numa versão minimalista, importava evitar duplicações e garantir a coerência das intervenções públicas e privadas de ambos os lados da fronteira estradas, pontes, atravessamentos, critérios de gestão do Rio Minho, acções no âmbito do Parque Gerês-Xurez, etc., integravam este primeiro nível de actuação. Rapidamente se percebeu, no entanto, que os benefícios potenciais se associavam também à troca de experiências e à cooperação na actividade empresarial, na cultura, no ensino, na formação profissional, na ciência e tecnologia. Por fim, tornou-se óbvio que as duas regiões a actuarem de forma articulada podiam adquirir escala no contexto europeu e internacional; um mercado de cerca de sete milhões de habitantes e uma forte cooperação estratégica pareciam ser os instrumentos mais eficazes para, combatendo a perifericidade inelutável, lançar projectos minimamente viáveis em sectores como, designadamente, o turismo, as infra-estruturas de transportes ou a ciência e tecnologia; de notar ainda que a ideia de transformar a "finisterra" da Europa na sua porta atlântica transcontinental ia aparecendo associada a eixos alternativos de dinâmica e influência no contexto de iniciativas europeias (não só o Interreg, mas também o Arco Atlântico, as Regiões Periféricas Marítimas, etc.).3. Importa sublinhar que, nesses tempos, o ponto de partida do Norte de Portugal era bastante mais favorável do que o da Galiza para a maioria dos temas; em particular, a capacidade de afirmação internacional da economia nortenha, a dinâmica da indústria têxtil e do calçado, a segurança decorrente da diversidade de sectores de aposta, a vitalidade empresarial e a proliferação de pequenas e médias empresas juntavam-se a uma população mais jovem, a taxas de desemprego mais baixas e a uma densidade invejável de emprego industrial e na construção.Recorri agora a alguns dados mais recentes, procurando comparar valores relativos à riqueza criada por trabalhador (à paridade de poder de compra), ao longo da última década. Apesar da maior vitalidade aparente do Norte de Portugal, em 1995 o rendimento médio de cada galego representava já 64.7% do da UE, enquanto o de cada nortenho equivalia a 50%, tal situação agrava-se posteriormente e, em 2005, o rendimento médio por habitante na Galiza atinge 76.4% do da EU, contra os mesmos 50% para o Norte. Lendo a mesma realidade numa perspectiva diversa, constate-se que cada galego possuía, em 1995, um índice equivalente a 82% da média dos espanhóis, uma percentagem que se mantém em 2005; a Região Norte, por sua vez, equivalia a 84% da média nacional, em 1995, mas cai para 79%, em 2005. Sinteticamente, e ainda de outro modo o rendimento médio de um português do Norte apenas representa 65% do de um galego, em 2005.4. Que causas estarão na base destas disparidades? Será talvez impensável pretender aqui a sua identificação exaustiva, mas interessará registar algumas diferenças relevantes- temos melhores infra-estruturas (aeroporto, porto de Leixões, rede de acessibilidades, etc.), mas tal nem sempre tem significado que tenhamos conseguido afirmar a nossa competitividade no espaço das duas regiões;- andámos em Portugal, durante anos, a desprezar as chamadas indústrias "tradicionais", sendo que hoje a pesca, a aquacultura, a transformação de produtos alimentares e o turismo encontram na Galiza alguns grandes expoentes internacionais e, por acidente ou não, a Zara é uma empresa galega;- já no fim dos anos 80, quando a generalidade das estatísticas económicas favoreciam o Norte de Portugal, havia excepções favoráveis à Galiza, as quais se concentravam na formação profissional, na formação ao longo da vida e no investimento em ciência e tecnologia;- algo de fundamental nos separava, desde o primeiro momento, do processo de cooperação é que, feito o diagnóstico dos problemas e definida a estratégia de actuação, a Galiza concretizava, enquanto os funcionários públicos da Região Norte elaboravam propostas competentíssimas que enviavam para Lisboa na esperança de que alguém as tomasse em conta...Por quanto tempo iremos continuar a assistir a uma trajectória deste tipo?
Elisa Ferreira escreve no JN, semanalmente, aos domingos
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